Co-Produção | Rita Sales e Dina Ladina | Teatro do Elefante
Contar
Histórias: Viajar sem Levantar os Pés do Chão
Contar histórias é como uma viagem que partilhamos com
outros, os que partem e os que ficam. E simultaneamente uma forma de preservar
os mistérios da comunidade e da terra. Em cada viagem aprendemos a conhecer as
nossas diferenças, e também a desejar a ruptura ou a desbravar novos caminhos. À
terra, por seu turno, devemos o pão e a água com que nos alimentamos, e o valor
da tradição.
O narrador casa um
andamento preciso (noção que bebo na teoria musical) ou o devir em constante
mudança, característicos do viajante, com a tradição, protegida pela memória do
indivíduo que se fixou à terra. Enquanto viajante o narrador rompe fronteiras,
rasga os limites físicos de um território em evolução natural. Na qualidade de
depositário do legado histórico da sua comunidade, guia-se pela medida circular
do tempo: da sementeira à colheita para, de novo, lavrar e semear o terreno
fértil da imaginação.
Quem não tem uma história de viagens para relatar e partilhar
com amigos? Ou, por outra via, quem não conhece uma história antiga que
atravessa várias gerações da mesma família? O contador de histórias simboliza a
sabedoria vinda de um tempo sem datas, nem territórios materiais. E, todavia,
relata acontecimentos nossos conhecidos. Ainda que, muitas vezes, na aparência
em nada nos digam respeito. Ele vai evocar do mais profundo da memória colectiva
uma verdade, uma sabedoria transmitida unicamente através de relatos orais. Pelo
mistério da preservação, pela ancestralidade…
O narrador recusa a linearidade da imagem televisiva, assim
como a perenidade impressa da literatura erudita. É a oralidade - o que
apreendemos vivo no seu corpo, no olhar cativante, no gesto expressivo e, claro,
na inflexão da sua voz encantatória.