…80 dias, mas podiam ser
oitenta anos!
Phileas Fogg, Passepartout e o incansável Fix percorreram uma
longa distância em apenas 78, 79 ou 80 dias… - podia ter sido em oitenta anos, o
tempo correspondente ao período médio da vida humana. Foi um comprido e não
menos conturbado passeio, de Londres a
Londres, atravessando uma boa parte do então império britânico, na sua
diversidade e complexidade natural e cultural. Apesar de se ter visto forçado a
enfrentar inúmeras adversidades ao longo do seu percurso intercontinental, o
gentleman inglês consegue vencer a sua
aposta e chegar a tempo e horas ao seu objectivo – talvez até um pouco
adiantado, contra a sua própria norma de vida.
*
A história passa-se em 1872 (o livro seria editado um ano
mais tarde…) e começa num circunspecto
club londrino, de acesso exclusivo a homens de negócios e
snobs ingleses abastados. Um dos
membros do clube, indivíduo cinzento e discreto, aposta com um grupo de
parceiros de jogo de cartas que poderia concluir uma volta ao mundo em 80 dias –
o que seria seguramente uma grande proeza, na época. Phileas Fogg, o nome do
reservado membro do clube inglês, saiu repentinamente do anonimato quando decide
partir para tão longa viagem, e tão arriscado desafio, cheio de imponderáveis.
Um dos quais seria a suspeita que sobre ele pendia, o de ter assaltado um banco
e de tentar fugir à lei através da aposta – que seria apenas, na opinião
esclarecida do inspector policial Fix,
uma manobra de diversão.
*
No percurso utiliza diversos meios de transporte, terrestres
e marítimos (hoje, teria meios aéreos mais acessíveis…), uma evocação clara e um
verdadeiro louvor à criatividade humana e ao progresso técnico e tecnológico.
Depara-se, simultaneamente, com estranhas formas (e tentativas oficiais…) de
preservação de culturas autóctones e de tolerância face às diferenças
civilizacionais. Intervém activamente, resgatando uma jovem da eminência de uma
morte cruel, num ritual religioso, pondo a sua própria vida em risco. Dá
guarida, protege e trata como amigo aquele que afinal o perseguia ferozmente, o
agente policial Fix.
*
Acompanhado por um criado francês, de nome Passepartout, o abastado inglês
consegue ultrapassar todos os obstáculos que encontra no seu percurso e atingir
Londres a tempo de reclamar o montante apostado. Mas não iria regressar na
condição exacta em que se encontrava quando saiu de Londres. Fogg regressou na
companhia de uma jovem mulher, de origem indiana, com quem casaria. No regresso
a Londres, vencedor e ilibado da responsabilidade do assalto ao banco, Phileas
Fogg era um homem modificado pela experiência. Enriquecido nos afectos, no modo
de ver o mundo e, sobretudo, mais tolerante perante as diferenças. A viagem
tinha deixado marcas irreversíveis, na sua vida.