De onde vimos? Quem somos? Para onde vamos?
Desconheço se Júlio Verne e Paul Gauguin alguma vez se
cruzaram neste mundo - o que, no entanto, poderá ter acontecido (ou não…) na sua
França natal, bem como noutro lugar físico ou imaginário. Todavia, não é difícil
perceber a existência de diversos pontos de encontro entre os dois homens, tanto
no que toca a aspectos predominantes do seu pensamento como no que diz respeito
às preocupações pessoais com o seu (nosso) mundo.
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Unidos de algum modo pela busca do universo primordial – e,
também, um tanto exótico - dos vastos territórios imperiais e coloniais do seu
tempo, os dois homens sentiam o estreitar dos mundos, das distâncias físicas
entre a Europa e aquelas terras, de um modo geral, longínquas.
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Dramaticamente desconhecidos da Europa
civilizada, esses territórios
coloniais ofereciam a matéria-prima ideal para uma boa tese sobre as nossas
origens (qualquer que fosse o seu carácter, religioso ou profano!) ou para as
diversas narrativas ficcionais que surgiram da pena e do pincel,
respectivamente, dos dois artistas. Ambos, escritor e pintor, procuravam dar
resposta à mesma questão: de onde vimos,
quem somos e para onde vamos?
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É Darwin que invade deste modo a cultura e o pensamento da
elite ocidental com a sua viagem e expedição científica, realizada a bordo do
Beagle, alguns anos antes. Eram, sobretudo, as descobertas que o
naturalista tinha feito sob a influência desses contactos com a natureza, ainda
mal conhecida na época, que viriam a motivar os mais interessantes debates de
ideias, fé e crenças, entre os europeus dos finais de 1800.
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Gauguin pintou nas ilhas
paradisíacas do Pacífico Sul um dos seus quadros mais emblemáticos deste seu
modo próprio de questionar as origens e a evolução da humanidade. Ele
inscreveria na própria tela a sua pergunta fundamental, numa frase que se
tornaria universal: d’où venons nous,
qui sommes nous, où allons nous? Nesta obra legava ao mesmo tempo à
posteridade um quadro de figuras-monstros, em representação da sua visão sobre a
origem da vida na Terra, assim como sobre os seus contemporâneos e o
progresso.
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Em Júlio Verne o elogio das ciências faz-se sentir de um modo
intenso, tal como transparece um manifesto deslumbramento perante a evolução das
técnicas e dos recursos tecnológicos. No entanto o autor não deixa de questionar
a direcção seguida pelo progresso, a bússola que nos orienta colectivamente para
o futuro. É muito crítico na sua Volta ao
mundo em oitenta dias em relação aos modos de gerir o confronto cultural,
tal como se verificava entre colonizadores e colonizados nos territórios sob
domínio da coroa inglesa atravessados por Phileas Fogg. É notória a sua oposição
relativamente ao modo como as culturas autóctones eram tratadas pelos povos
colonizadores, ora reprimidas ora discriminadas, relevando delas muitas vezes
aspectos meramente caricaturais.
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É, em suma, o progresso
que é questionado, tal como o conheciam os homens e as mulheres do século XIX –
e que de um modo ainda mais acentuado nos afecta, hoje. É, igualmente, a
exposição intensa das dúvidas e da perplexidade daqueles que assistiam às e
participavam nas profundas mudanças que se verificavam no seu tempo, perante a
velocidade alcançada pelos novos meios e, por conseguinte, pela própria
humanidade no seu devir histórico.